Comer ao longo da EN103: roteiro gastronómico pelo Norte de Portugal

Se há algo que os portugueses sabem fazer bem, é cozinhar e comer. A nossa gastronomia, fruto do amadurecimento de práticas ancestrais, pontuada por dificuldades em obter ingredientes, e associada à criatividade e ao “desenrascanço” tão nacional, levam a que surjam pratos únicos um pouco por todo o país.

A esta riqueza junta-se a vontade de juntar família e amigos à mesa para partilhar o que de melhor se tem em cada momento. Depois da iniciativa #euficoemPortugal que nos levou até Peniche, o Turismo do Porto e Norte convidou-nos a percorrer as regiões ao longo da Estrada Nacional 103 (EN103). Aceitámos logo o desafio e partimos à aventura. Agora que recordamos os melhores momentos desta viagem, damo-nos conta que uma boa parte deles foram à mesa entre amigos.

Há muito para escrever sobre a gastronomia do Minho e de Trás-os-Montes. Este artigo será com certeza curto para escrever sobre tudo. Sorte para o leitor que, para além das dicas e pratos de que falamos, poderá descobrir muito mais in loco. A nossa viagem começa no extremo nordeste de Portugal, na aldeia encantada de Rio de Onor. 

De Rio de Onor a Vinhais

Rio de Onor, uma das 7 aldeias Maravilha de Portugal, é um local onde a tradição comunitária é rainha. Era dos terrenos comunitários da aldeia que saíam muitos dos produtos agrícolas para consumo da comunidade. Quem falhava nas suas tarefas tinha direito a um “apontamento” na vara da justiça e pagava uma multa em vinho – que seria bebido nas festas da aldeia.

E foi mesmo ali, perto da Casa do Touro e dos antigos terrenos comunitários, nas margens do rio que dá nome à aldeia, que tivemos a nossa primeira experiência gastronómica desta viagem pelo Norte de Portugal. Um piquenique, que incluiu alguns dos melhores produtos da região: enchidos, presunto, broa de milho, a melhor marmelada que provámos nos últimos tempos, tortilla da vizinha Espanha – a aldeia espanhola de Rihonor é mesmo ali ao lado -, e muito mais. Tudo isto bem regado com um belo vinho comunitário.

Piquenique em Rio de Onor, Bragança
Piquenique em Rio de Onor

Ao longo da EN103, a tarde seria passada em Bragança, onde conhecemos tradições relacionadas com as Máscaras do Nordeste Transmontano e explorámos o centro histórico da cidade. Rumámos então a Vinhais, a capital do Fumeiro.  Jantámos no centro da vila e deliciámo-nos com enchidos de carne de porco bísaro, uma carne especial que exponencia a qualidade deste petisco.

Enchidos, chouriço e alheira, de Vinhais, na EN103
Chouriço e alheira de Vinhais

De Boticas a Montalegre

Na manhã seguinte acordámos no meio da Natureza, no Parque Biológico de Vinhais. Depois de dar os bons dias aos animais que habitam este Parque, continuámos a trilhar a EN103, desta vez em direção a Boticas.

Já em Boticas, começámos por visitar o Centro de Artes Nadir Afonso, onde também está instalada a Loja Interativa de Turismo. Aqui, ouvimos pela primeira vez a história por detrás do Vinho dos Mortos, um vinho tradicional desta região.

Conta a história que, durante as invasões francesas, no séc. XIX, a população de Boticas enterrou os seus valores, entre os quais o vinho, com medo das pilhagens. Ao recuperar o vinho, que se pensava estar estragado, descobriram que este tinha novas propriedades. E assim se iniciou uma nova forma de produção deste vinho, tão peculiar.

Como a arte abre o apetite, fomos almoçar ao Hotel Rio Beça. Aqui, comemos algumas das melhores entradas de toda a viagem: presunto caseiro, cogumelos salteados, feijão frade com enchidos e salpicão com broa frita. Depois provámos alguns dos pratos mais conhecidos do restaurante: naquinhos de vitela barrosã, cabrito barrosão e truta do rio Beça. Todos eles divinais. Ainda sobrou “apetite” para atacar o carrinho das sobremesas. Tudo isto regado com bom vinho de Arcossó e água de Carvalhelhos.

A viagem continuou, lentamente para não prejudicar a digestão, pela região de Barroso, em direção a Montalegre. A primeira paragem foi na aldeia de Vilarinho de Negrões, uma das finalistas das 7 aldeias Maravilha de Portugal, onde passeámos de barco pela albufeira do rio Rabagão.

A paragem seguinte, ao longo da EN103, foi na Venda Nova, onde jantámos no restaurante Assador Barrosão. Fomos mais uma vez recebidos com saborosos enchidos, presunto e paio. Aconselharam-nos a experimentar alguns deles com o delicioso mel barrosão DOP.  Havia também uns muito portugueses bolinhos de bacalhau e suculentos mexilhões em tomatada – porque nem só de carne vive o homem.

Enchidos, no Restaurante Assador Barrosão, Venda Nova, Montalegre
Enchidos em Montalegre

Para prato principal tivemos a mui reconhecida Posta Barrosã, uma carne tenra de primeira qualidade. Houve ainda quem preferisse o Bacalhau à Casa e não ficasse nada desapontado.

Posta Barrosã, no Restaurante Assador Barrosão, na EN103
Posta Barrosã

Para sobremesa havia várias opções, entre as quais se destacava o Doce da Casa. Nesta altura já só pensávamos na dieta que teríamos de fazer no fim desta viagem, já que não resistíamos a tanta iguaria.

De Ponte da Barca ao Soajo

Continuando a nossa road trip pela EN103, trocámos o Alto Tâmega pelo Alto Minho e passámos a manhã no município de Ponte da Barca. Uma manhã cheia de atividades no rio Lima, que nos abriram o apetite para continuar a experimentar a gastronomia local.

Almoçámos no restaurante Vai à Fava, em Ponte da Barca, com uma vista lindíssima para o rio Lima e para a ponte quinhentista. A decoração do restaurante, repleta de objetos peculiares – alguns dos quais se podem adquirir – revelou logo um conceito um pouco diferente do que tínhamos experimentado até aqui. Esperava-nos uma cozinhar que tira partido da qualidade dos ingredientes locais, transformando-os e valorizando-os.

A refeição começou com uns Folhadinhos de Alheira e um original Salame com Nozes. Para prato principal esperava-nos Bacalhau em Cama de Espinafres. Tudo isto acompanhado de Espumante, Vinhos Verdes e Tintos da Cooperativa de Ponte da Barca. Uma bela refeição num cenário perfeito.

Bacalhau em Cama de Espinafres no Restaurante Vai à Fava, em Ponte da Barca, na EN103
Bacalhau em Cama de Espinafres

Se tiver oportunidade pode dar um pulinho à pastelaria Liz e provar (ou levar) doces tradicionais da terra: as deliciosas Queijadas de laranja e os Magalhães, em homenagem ao navegador Fernão de Magalhães que se julga poder ter nascido por estas bandas.

Magalhães, doce tradicional de Ponte da Barca
Magalhães, doce tradicional de Ponte da Barca

De Arcos de Valdevez a Ponte de Lima

Inspirados por Fernão de Magalhães, seguimos a nossa rota pela EN103 em direção a uma região que nos traz muito boas memórias, o Parque Nacional da Peneda-Gerês. É numa das suas cinco portas, a Porta do Mezio, que retemperamos um pouco as energias. Mas apenas um pouco, porque há ali muito para ver e fazer.

Depois de visitar a Aldeia dos Pequeninos e andar a cavalo, aventurámo-nos pelo arborismo – cujo percurso mais difícil é ideal para os mais audazes – e terminámos no slide. Programa perfeito para abrir o apetite.

Lanchámos a tradicional broa de milho e enchidos mais que saborosos. Experimentámos ainda os famosos Charutos de Ovos, Broinhas dos Arcos e Pão-de-Ló do Soajo. Tudo isto regado com o tradicional Vinhão (vinho verde tinto encorpado). Os mais corajosos ainda experimentaram os Rebuçados dos Arcos, que dizem durarem na boca mais de duas horas.

Deixámos a Porta do Mezio e fomos em direção ao Soajo, onde passeámos pela aldeia e apreciámos de perto o incrível aglomerado de espigueiros. Já de noite, rumámos ao restaurante Saber ao Borralho para jantarmos. Neste restaurante, onde a sala se dispõe em torno de uma enorme lareira, debicámos azeitonas misturadas com tremoços e pão. Logo chegaram também a manteiga, o queijo, o paté e as pataniscas com broa frita.

Mas o melhor estaria para vir na forma de prato principal: Carne Cachena DOP assada no forno acompanhada com batatinhas e Arroz de Feijão Tarrestre. A carne Cachena, brilhantemente cozinhada pela D. Rosa, assou em forno de lenha durante mais de 5 horas e desfazia-se na boca. O arroz, com o típico “feijão Tarrestre”, legumes e chouriço caseiro, revelou-se o acompanhamento perfeito. Tivemos ainda oportunidade de provar carne Cachena grelhada, prato este que realça ainda mais a qualidade da carne.

Carne Cachena DOP assada no forno no restaurante Saber ao Borralho, Soajo, Arcos de Valdevez, na EN103
Carne Cachena DOP assada no forno

Houve ainda espaço (mas pouco) para provar alguns doces. Para além de Pão-de-Ló do Soajo e de Charutos de Ovos acompanhados com Laranja de Ermelo, havia o tradicional Bolo de Discos e um Cheesecake de Figo. Este jantar foi sem dúvida um dos pontos altos da nossa viagem e voltaremos com certeza para repetir.

Seguiu-se um serão a ver as estrelas na Porta do Mezio e o merecido descanso – comer e deambular pelas Maravilhas de Portugal também cansa.

Acordámos cedo e retemperados para o último dia, todo ele dedicado a Ponte de Lima. Começámos com um passeio pelas ruas da vila, cheias de história, e percorremos o rio Lima num Água-Arriba, um barco histórico antigamente utilizado para transporte de mercadorias.

Para almoçar subimos até ao restaurante Monte da Madalena, que tem uma vista fantástica sobre Ponte de Lima. Tivemos entradinhas para todos os gostos: Folhadinhos de queijo, Camarão, Rissóis, Croquetes, Bolinhas de alheira, Cogumelos salteados e Pimentos padrón. Tudo isto acompanhado de uma refrescante Sangria e Vinho Verde.

A carta, com influências internacionais, permitiu-nos variar da rigorosa dieta transminhota que tínhamos vindo a seguir. A Diana entregou-se a um Risotto de cogumelos e eu pedi um Caril de Gambas. Por azar, que viraria sorte, acabei por ter de escolher outro prato: umas deliciosas e suculentas Bochechas de Porco com Batata Assada e Grelos. Ainda cobicei um pouco o Bacalhau com Broa do vizinho do lado. Fechámos a refeição com um Strudel de Maçã bem estaladiço.

Durante a tarde ainda houve tempo para visitar o Solar de Calheiros e de conhecer o campeão olímpico Fernando Pimenta, depois de umas remadas de kayak no rio Lima.

Terminámos este nosso roteiro gastronómico pela EN103 com três certezas inabaláveis: a qualidade ímpar dos produtos locais e da sua gastronomia, a necessidade de fazermos uma dieta depois desta viagem e de que no Norte se come mesmo muito bem!

Para além de tudo o que experimentámos, temos a certeza de que muito mais há para provar. Deixem-nos as vossas sugestões de iguarias e restaurantes favoritos ao longo das regiões que a Estrada Nacional 103 (EN103) atravessa.

Agradecimentos

Agradecemos ao Turismo do Porto e Norte de Portugal pela magnífica e bem servida viagem que organizaram ao longo da EN103. À Living Tours e ao Sr. Manuel, que nos transportaram em segurança ao longo desta aventura. Aos Municípios que tão bem nos acolheram: Bragança, Vinhais, Boticas, Montalegre, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Ponte de Lima. E à ABVP-Associação de Bloggers de Viagem Portugueses pelo contributo para tornar possível esta experiência.

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2 Comments

  1. Só de me lembrar de tudo isto já me abriu de novo o apetite!

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